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História da Capoeira |
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Em meados do século XVI,
mais de dois milhões de negros foram trazidos à força
da África para o Brasil, pelos colonizadores portugueses,
em grandes galeotas chamadas navios negreiros para
serem escravizados. Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro
foram os portos finais da maior parte desse tráfico. Os negros bantos, vindos principalmente
de Angola, não aceitaram pacificamente
o cativeiro, em seus rituais religiosos praticavam danças num ritmo frenético, ao
som de instrumentos de percussão. Tais danças eram coreografadas
com gestos, saltos e ginga de extraordinária flexibilidade e
agilidade. Mais tarde, para
escaparem de seus feitores, os
escravos aliaram sua destreza de movimentos a golpes de lutas africanas e desenvolveram
uma técnica de defesa e ataque surpreendentemente inovadora. Era a
capoeiragem. |
Essa forma de rebeldia,
antes utilizada como arma de luta entre inúmeras fugas durante
a escravidão, tornou-se
um símbolo da resistência do negro à dominação.
Assim em 1821, a capoeiragem foi severamente
reprimida. Sua prática ficou sujeita a castigos corporais e
a medidas não menos agressivas.
O governo republicano, instaurado em 1889, deu continuidade à
política de repressão e associou diretamente a Capoeira
à criminalidade, como consta no Decreto
847 de 11 de outubro de 1890 com o título "Dos Vadios
e Capoeiras": Artigo 402: Fazer nas
ruas ou praças públicas exercícios de destreza
corporal, conhecidos pela denominação
de capoeiragem: pena de seis meses a dois anos de reclusão. § Único:
É considerada circunstância agravante pertencer o capoeira
a alguma banda ou malta. Aos chefes,
ou cabeças, impor-se-á a pena em dobro. Em 15 de dezembro de
1890 o então Ministro das Finanças Ruy Barbosa mandou
incinerar os documentos que se
referia à Escravidão, alegando que se deveria apagar
da memória brasileira essa lamentável
instituição. Os historiadores atribuem tal ordem a uma
estratégia que procurava evitar
que os ex-proprietários de escravos exigissem junto ao governo uma compensação
dos prejuízos que tiveram com a abolição da escravatura,
em 1888. Provavelmente esses documentos nos trariam muitas
informações sobre a vida dos escravos, suas fugas, suas formas
de resistência à escravidão. Considerando-se a dificuldade
à inserção dos escravos e seus filhos na vida
social brasileira pós-abolição,
o peso de quatrocentos anos de tradição escravocrata,
compreende-se a estratégia da
formação de maltas de capoeiras, grupos que se multiplicaram
no século passado e no qual se
incluíam figurões importantes da política da
época. É importante frisar que a história
da Capoeira no Rio de Janeiro mostra que a prática da luta
não se restringia às camadas mais
pobres da população: era também comum nas forças
armadas e em colégios famosos,
como Sabino, Pardal, e até mesmo no renomado Colégio
Pedro II. Várias maltas
no Rio ficaram famosas, entre elas as maltas denominadas Cadeira de Senhora (freguesia
de Sant'Anna), Guaiamuns (freguesia da Cidade Nova), Luzianos (Praia de Santa Luzia) e Espada
(Largo da Lapa). Há registros em jornais e livros da época, relatando a atuação
de grupos semelhantes em São Paulo, Recife e Salvador. Até o início
deste século, eram dois os grandes centros de prática
da Capoeira no Brasil: Rio de Janeiro e Salvador.
No Rio, a Capoeira estava, de uma certa forma, integrada á
vida do chamado "malandro
carioca", envolvendo, como dito atrás, inclusive camadas
sociais privilegiadas. Em Salvador,
como em outros pontos do Nordeste, a Capoeira permaneceu por muito tempo restrita
às comunidades pobres da periferia. É nessa época
que ocorre o grande salto na história da Capoeira. Insatisfeito
com o preconceito e a marginalização
que envolviam a arte-luta brasileira, o baiano notabilizado como Mestre Bimba resolve
criar uma variação de Capoeira, a Luta Regional Baiana,
ou simplesmente Capoeira
Regional.
Mestre Bimba estava preocupado com
a eficiência combativa da Capoeira que, na opinião dele, vinha-se perdendo
pela ação do turismo. A maioria dos capoeiristas de
Salvador, à época, envolvia-se
em demonstrações para turistas, o que fez com que a
Capoeira fosse se transformando em uma
espécie de show acrobático, distanciando-se bastante
de seu sentido original de
luta. Por esse motivo, Mestre Bimba, que nos anos 30 já era
conhecido por todo o Nordeste
como destacado lutador de ringue, resolve criar uma modalidade de Capoeira que, ao mesmo
tempo, resgatasse a combatividade da luta de libertação
dos escravos negros e incorporasse
diversas técnicas de outra lutas, inclusive o jiu-jitsu e o boxe.
Assim, a Capoeira de
Mestre Bimba, embora preservando a movimentação e os
antigos rituais, era uma luta
mais agressiva, menos acrobática, com chutes mais altos e velozes.
Os treinamentos envolviam
combinações de chutes com golpes de mão e cotoveladas.
As quedas, por desequilíbrio
ou projeção, eram também muito importantes na
Capoeira Regional.
Mas as inovações
do capoeira baiano não ficaram só no aspecto técnico.
Envolveram principalmente o campo
pedagógico, ou seja, Mestre Bimba percebeu a necessidade de sistematizar o ensino
da Capoeira, que até então apenas ocorria informalmente
nas rodas de rua. Ele criou toda
uma metodologia de ensino, que compreendia um Curso de Capoeira Regional, Curso de
Especialização, a cintura desprezada (conjunto de técnicas
de agarramento em projeções)
e Seqüência de Ensino (oito seqüências sincronizadas
de golpes e contragolpes, praticadas
em duplas, para fixação dos movimentos básicos
da Capoeira). Vale destacar que, a
Capoeira Angola era bastante diversificada, havendo diferença
nos nomes dos golpes e
dos toque de berimbau. Do começo do século aos anos
30/40, inúmeros capoeiristas baianos
não se vincularam diretamente ao Mestre Bimba ou à Capoeira Regional. Alguns muito
famosos como Traíra, Cobrinha Verde, Onça Preta, Pivô,
Nagé, Samuel Preto, Daniel
Noronha, Geraldo Chapeleiro, Totonho Maré, Juvenal, Canário
Pardo, Aberrê, Livino,
Antônio Diabo, Bilusca. O capoeirista que se notabilizou como
o maior defensor da Capoeira
Angola foi sem dúvida Mestre Pastinha. Bimba e Pastinha pelo trabalho que realizaram,
são considerados os mais expressivos nomes da história
da Capoeira em todo o
Brasil.
O aparecimento da Regional
gerou grande polêmica no ambiente da Capoeira, uma vez que muitos entenderam as
inovações de Mestre Bimba como uma descaracterização
das tradições
da luta. Iniciou-se, nos anos 30, um debate, que perdura até
hoje, sobre o que é a "verdadeira Capoeira"
e quais modificações podem ser introduzidas sem desrespeitar
os princípios e
tradições da luta.
Além do avanço
na organização dos grupos e todo um processo de retomada
das antigas tradições
nos anos 80, dos velhos Mestres serem chamados a ensinar os fundamentos
da luta às novas
gerações e participarem de inúmeros eventos em
todo País e no Exterior, outro passo importante
na institucionalização da Capoeira como esporte e arte
marcial foi sua inclusão
nas escolas e universidades. Muitos cursos de educação
física em todo o país têm a Capoeira
como matéria curricular, o que faz com que os professores neles
formados tenham noção
das possibilidades dessa luta no tocante ao desenvolvimento motor
e à preparação
física. Nessa trajetória é importante destacar
que, de 1985 a 1990, a Capoeira passou a fazer parte
dos Jogos Escolares Brasileiros (JEB's), a mais importante competição esportiva do gênero
no Brasil. Paralelamente a todo
esse processo de organização e de conquista de espaço
na sociedade, a Capoeira
desenvolveu-se muito no aspecto técnico. A luta tornou-se mais rápida e os
golpes mais ofensivos. A Capoeira, que já se destaca pelos
seus golpes circulares e desequilibrantes,
tem-se enriquecido com diversas formas novas de quedas.
Em decorrência
desse desenvolvimento ao longo deste século, a luta brasileira
da Capoeira tem conquistado seu
lugar entre as artes marciais, no Brasil e no mundo, enriquecida ainda pela sua musicalidade,
o que lhe dá uma grande especificidade entre as demais lutas.
Referência Bibliográfica:
Revista Capoeira nº3
O que é Capoeira,
Anande das Areias, 4ª edição.
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